Eram felizes, mas nem tanto...
- Monica Dominici

- 1 de mai.
- 3 min de leitura
Quando as crianças eram pequenas comprei um livrinho, aliás comprei vários, líamos todas as noites, sem falta, mas um, em especial, sempre me voltava a memória... não consigo me lembrar o nome, mas a estória era mais ou menos assim:
Um casal da caverna “era feliz, mas nem tanto”, pois tinham que comer no chão, então fizeram mesa e cadeiras, crentes de que agora sim a vida ficaria plena, ...mas...
“Eles eram felizes, mas não tanto”, pois dormiam no chão, e desenvolveram a cama...“Eles eram felizes, mas nem tanto”, pois comiam em suas mãos, desenvolveram os pratos e assim vai... desenvolvendo coisas e mais coisas ... telefones, computadores, foguetes, tudo de tudo, mas não chegavam à famigerada plenitude, e pior, cada vez estavam mais desconectados de si.
” Eles eram felizes, mas nem tanto”, pois foram engolidos pela civilização...
Aí, aconteceu o que já sabemos, eles trabalhavam muito, suas vidas eram isoladas, artificial, virtual, plastificada, entristeceram, adoeceram e tudo o que eles mais queriam era voltar a ficarem juntos no pé da árvore e sem pressa outra vez.
A estória é ótima, muito bem montada, as crianças adoravam...Para mim nada mais real que a estória do casal da caverna... “eles eram felizes, mas nem tanto” talvez seja difícil mesmo lidar com as nossas faltas, tentamos tapar nossos buracos com coisas, e outras coisas, e mais coisas, e vamos nos distraindo com gadgets, com relações rasas etc.
O imperativo é radical, não tenha falta... goze, compre, consuma, coma, destrua, lute, trabalhe, não envelheça, troque, jogue fora, descarte, compre mais, mate, e se não conseguir viver assim, morra, sua vida de nada vale.
Meu Deus do céu... o que aconteceu? Onde viemos parar?
A falta é constitutiva do ser humano. As escolhas são infinitas, gerando uma angústia sem fim... a cada escolha haverá sempre renúncias, e está tudo bem em renunciar o que não foi escolhido, mas sempre haverá uma voz malévola a lhe dizer: - Por que você não foi pelo outro caminho? Todos por lá estão bem melhores que você! Trouxa!
Balela!... talvez alguns tenham ido por outros caminhos e estejam felizes por lá, pois isso tem a ver com as suas subjetividades e desejos, mas isso não significa que eu também seria feliz naquele lugar, ou caminho!
Não se copia e cola desejos, eles são individuais, singulares... copiar a boiada é o caminho mais curto para o adoecimento, psíquico e físico.
Minha alma está ali, alinhada com o meu próprio desejo, não posso viver o sonho dos outros, seria apenas uma sombra de mim.... acho que até aqui, não há discussão...
O caminho do reencontro, quando nos descolamos do nosso próprio desejo, e isso acontece muito, por sermos sistematicamente cutucados e provocados pela cultura, é escutar exatamente o nosso desejo e os nossos sintomas. Pois eles não mentem!Acredite neles, invista neles, não descole deles, e siga através deles, por mais difícil que lhe pareça. Certamente isso irá te livrar de coisas bem mais graves no futuro.
Eles eram felizes, mas nem tanto... algo dentro de nós sempre irá gritar por mais, esse bicho maluco mimado que nos habita não se cala e não cessa. Escuta-lo sem julgamento é trazer a luz aquilo que nos amedronta e com um só sopro apagar a chama da angústia, e quando quisermos o novo, de novo, cutucamos nosso bichinho e lhe perguntamos: - Qual é a próxima, amiguinho??
A falta nos motiva a irmos a diante, é necessária, mas ela desembestada, poluída, e sem direção nos angustia e nos adoece!!!
E sim, eles eram felizes, só ainda não sabiam disso...tiveram que descobrir.




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